Timing, lack of
- Peraí, você não me contou isso, Melissa!
- Não contei? Então, foi horrível.
- Horrível como?
- Digamos que ele se esforçava muito. E tinha espelho no teto, então dava para eu ver o quanto o infeliz tentava.
- E?
[Melissa faz cara de tédio]
- Hahaha. Nada, jura?
- Menina, me viro melhor sozinha… daí ele tava lá, e eu fiquei vendo o jogo de futebol, porque a televisão estava ligada. Demos um tempo, ele quis começar de novo. [Nova cara de tédio] Lá vamos nós… daí eu fiz uns sons e tal… né? Mas dei uma olhada no relógio (e ele lá, se esforçando muito, todo suado), vi que era hora de Gossip Girl e entrei em desespero. Tentei continuar assistindo… daí dei até um incentivo para ele continuar, para não terminar antes da série e ele não mudar de canal… porra, perdi um pedaço enorme daquele episódio, e era a última reprise…
E é por isso que Melissa nunca se oferece para pagar o motel.
- No dia seguinte, estávamos conversando no MSN, discutindo sobre outros assuntos. Ele é daquele tipo que sempre foge da conversa quando a coisa aperta, sabe? Daí apertou, eu fiquei irritada e escrevi uma mensagem. Na mesma hora em que dei enter, apareceu uma pergunta dele, sobre o motel, e a minha frase apareceu em baixo.
- Qual a pergunta dele?
- ”Mandei bem?”
- E o que apareceu embaixo?
- ”Você é fraco”, a frase que eu tinha mandado antes. E é por isso que ele não fala mais comigo.
Os filhos dos filhos, dos filhos…
Acabou agora mais uma etapa da maior tradição dos Carvalho: Pantanal.
Toda família tem seus mitos, sua histórias difíceis de acreditar. Por exemplo, a lenda de que quando a família da minha avó veio de barco da Itália para o Brasil, era muito rica. As viagens de barco então eram muito demoradas, e a embarcação estava sempre úmida. Nossos antepassados, então, aproveitaram um dia particularmente quente e deixaram suas maletas a secar sob o sol. Nossa fortuna então foi furtada, e ficamos pobres.
Ah, vale comentar que a família que roubou nosso dinheiro se chamava…. Matarazzo.
É uma boa história de família, não posso negar, mas é a saga dos Leôncio, oficialmente ficcional, que nos move e une mais. Quantas vezes for reprisada, assistiremos Pantanal. Minha madrinha é, de todas, a mais aficionada: antes de que a novela fosse reprisada novamente em 2008, a piada na família era de que não se poderia tocar no assunto, do contrário ela começaria a chorar – o que era um fato.
Essa é uma novela que apela a um tipo específico de pessoa sentimental: aquela que é tocada por histórias de família, não importa qual. Agrada quem gostou de Os Maias, Anos incríveis e afins. A história do, digamos assim, personagem principal, é asssim: Zé Leôncio perde de forma desconhecida seu pai, de quem era muito próximo – de modo que ele nunca acredita que o pai tenha realmente morrido. Enquanto toca adiante sua vida e constrói sua família, houve falar de um tal Velho do Rio, homem estranho e um tanto sobrenatural que, dizem, é seu pai, pois é muito semelhante a ele. Zé Leôncio passa a vida toda esperando que o Velho apareça para ele, já que aparece para seus filhos e para pessoas próximas. Apenas neste último capítulo pai e filho se encontram, por conta da morte do Zé – que recebe o chapéu e a capa do pai, ficando responsável então por zelar por seus filhos e netos, e pelo Pantanal.
Enfim, há muito mais coisa por aí, mas o clima é mais ou menos esse. Família, amor e permanência após a morte. Vale comentar também que o Velho do Rio foi inspirado no pai de Benedito Ruy Barbosa, autor da novela. Digno.
Quantos anos até o próximo derramamento de lágrimas por causas pantaneiras na família?

Quando era pequena, eu achava que era a Juma. Hoje sei que sou mais difícil de lidar.
A Globo exibia, até agora há pouco, O Segredo de Brokeback mountain. Minha mãe, embora não tenha problemas com homossexuais, ficou meio chocada com uma cena de sexo. E, assim como meu irmão, ficou tentando adivinhar quem era o homem e quem era a mulher da relação. “Olha, o loiro tá abraçando, o moreno está sendo abraçado. Então o loiro é o homem”.
Ontem, passava pouco das três da manhã, uma mulher passa chorando, aos berros, na rua. O homem batia nela, ela berrava. Chovia forte. Uma vizinha aqui do prédio, do andar de cima, gritou com o homem, mandou ele largá-la. Ele largou e continuou andando, mais rápido, com uma garrafa na mão, um líquido transparente, quase no fim. A mulher, ainda chorando e gritando com ele, ia atrás. Os dois bem adequados aos seus papéis de macho e fêmea.
E eu fico imaginando quantas pessoas acham essa segunda cena mais normal e aceitável do que Brokeback mountain.