Passa e não devolve
O excelentíssimo senhor Caio Teixeira, jornalista, escritor e Fio (ou Fó, ou Fundo, não sei), entrou na brincadeira de uma amiga, uma espécie de corrente. Inevitavelmente, isso significou passar a coisa adiante:
“Funciona assim:
1ª Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure)
2ª Abrir na página 161
3ª Procurar a 5ª frase completa
4ª Postar essa frase em seu blog
5ª Não escolher a melhor frase nem o melhor livro
6ª Repassar para outros 5 blogs.”
Desafiada, eu, que não sou muito macho e não sou de me assustar com qualquer coisa, posto aqui minha frase:
“Há, salpicadas em toda parte do mundo, ‘guarnições de extraterritorialidade’, aterros sanitários para o lixo não-despejado e ainda não-reciclado da terra de fronteira global”. – Amor líquido, do Zygmunt Bauman. (Agradecimentos ao TCC que me poupou de publicar pornografia neste blog)
Curiosa que sou, quero saber o que alguns de meus amigos estão lendo (e isso não é um convite): o que será que está escrito na 5ª frase completa da página 161 do que lê a Garota nota dez, a moça com nome de cidade, o sr. Arbex, a sra. Poeta Francês e a moça com nome de música do Tom?
(pensando em duas amigas que vão ter de, cada uma a seu modo, deixar um lugar para trás)
Era estranho olhar para aquela sala de aula tão vazia. Alguns poucos colegas estavam lá para ver as notas, mas ninguém parecia se importar muito com o fato de que era a última vez – exceto Marcelo e eu.
“Não vai pra Cásper não. Vem pra São Judas. Você faz jornalismo, eu faço publicidade, e assim talvez você ainda pode continuar fazendo meus trabalhos.”
O último professor entregou a última nota e, surpresa, nenhuma recuperação para mim. Nem física, nem química, nada. Então só restava ir embora. Olhar as paredes brancas e as portas azuis daquele quinto andar e pensar só no futuro: nada além da Cásper. São Judas, era só o que faltava!
Um beijo no Marcelo e fechar a porta sem olhar para trás. A cada passo, aquela sensação de nunca mais. Por menos que se aprenda na escola, por piores que sejam a maioria dos colegas e professores, é inevitável a sensação de vazio que dá ao pegar o elevador pela última vez, dar tchau para o tio da portaria e deixar que aquele mundo se feche definitivamente para você. E ainda ter de fazer cara de alegria, porque todo mundo estava alegre.
Chegando em casa, uma garrafa térmica com café, duas xícaras, e um tijolo: o Álbum Branco dos Beatles, embrulhado em uma folha de papel sobre a Faculdade Cásper Líbero. Parece que é tradição mãe e filha chorarem juntas em momentos como esse.
(Mudanças são assustadoras e muitas vezes parece que nunca vai haver algo tão bom e satisfatório em outro lugar. Por mais significativa e única que seja uma experiência, por mais que ela seja parte do que você é hoje, sempre chega o fim, e é preciso lidar com ele. Mudanças, surpresas, o inesperado – faz parte. A forma de lidar com isso vai depender da genialidade de cada um.)
10!!! 8)
Choque de realidade

Seis da manhã, acordar. Um olhar para os Beatles na parede e uma única vontade que não era voltar a dormir nem tomar café. Som alto, Here, there and everywhere. Daí então começar o dia. Porque às vezes é bom fugir um pouco – ou totalmente – e ser feliz um montão.
Bluebird, See your sunshine, It’s all too much, All you need is Love, I will, Julia.
Mais tarde, a exposição da Yoko, maior concentração de lirismo por metro quadrado em São Paulo. Pedras para medir a diferença entre tristeza e felicidade, óculos sujo de sangue, um bebê preso em um saco ensanguentado, uma bóia de cachorrinho dedicada a Kierkegaard, um pedaço de madeira para martelar pregos e uma lembrança que não é minha, é deles: “Posso colocar um prego?” – “Pode, se pagar.” – “Se eu pagar com dinheiro imaginário, posso martelar um prego imaginário?”
Última coisa antes de ir embora, martelei um prego.
Uma obra, um moço explicando para um grupo de mulheres:
“Essa peça foi muito importante para a história de John Lennon e Yoko Ono. Subindo essa escada, você pega a lupa e lê, lá no teto, a palavra YES. Foi por causa dessa obra que John começou a se apaixonar por Yoko”.
“Que idiota!”, comentou uma das mulheres do grupo.
“Veja bem, senhora… aqueles eram tempos conturbados. Havia muitas proibições, muita negatividade. Ele gostou que alguém finalmente tivesse dito algo positivo. Ela disse para ele que sim, e era o que ele precisava ouvir.”
“Um idiota. Não existe mais homem assim hoje em dia!”
Nem mulher, né?
Baby, you’re a rich man
Kant tinha a convicção curiosa de que uma pessoa não podia ter uma direção firme na vida enquanto não atingisse os 39 anos.
Em 1972 Paul McCartney tinha 30 anos e o Wings fazia uma turnê pelas universidades britânicas. Já o John Lennon lançou o disco John Lennon/Plastic Ono Band em 1970, quando tinha 30 anos. Duas músicas desse disco são clássicos dele: God e Working Class Hero. George Harrison lançou o disco Living in the Material World, que tem Give me love (give me peace on earth), em 1973, quando tinha 30 anos. O disco ficou por cinco semanas no primeiro lugar das paradas americanas. Em 1972 Brian Wilson tinha 30 anos e um grave desequilíbrio emocional… ele só comia… sorry! Por outro lado, Beethoven estrou em Viena sua Sinfonia Nº1 em Dó maior Op.21 aos 30 anos – isso deve ser bom, certo? Em 1960, aos 30, Pierre Bourdieu tornou-se assistente de Raymond Aron, na Faculdade de Letras de Paris, iniciou seus estudos sobre o celibato na região de Béarn e integrou-se ao Centro de Sociologia Européia. Em 1818, aos 30 anos, Schopenhauer terminava seu trabalho de quatro anos, O Mundo como Vontade e Representação, que lançaria no ano seguinte.
“Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada. Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como quando o mineiro vê pela primeira vez o mar. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer. Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.”
(Trechos do texto Fazer 30 anos, de Affonso Romano de Sant’Anna)