Um post anônimo
Houve um tempo em que nem todo mundo podia dizer o que pensava. Principalmente as mulheres. Entre essas pobres criaturas, as que tivessem um pouco mais de talento e coragem só poderiam publicar um livro, por exemplo, usando um pseudônimo masculino, como aconteceu com a inglesa Mary Ann Evans (que teve de virar George Eliot) ou a francesa Amandine Aurore Dupin (ou George Sand).
Pessoas envolvidas em causas políticas, para proteger sua família, escondiam seu verdadeiro nome sob pseudônimos, como Vladimir Ilich Ulyanov – mais lembrado como Lenin – ou o camarada Stalin, Sr. Ióssif Vissariónovitch Djugashvili.
De fato, algumas pessoas tem um nome tão pouco afável e tão propício a piadas que preferem trocá-lo por algo mais sonoro, como Sílvio Santos, o Senor Abravanel. Simplificar é bom e o povo gosta – e, note, o verdadeiro nome não deixa de ser de conhecimento popular.
Em alguns casos, a preservação da identidade do indivíduo é uma questão de segurança, como ocorre com Peter Parker – seria muito mau se todos soubessem como ele consegue aquelas fotos incríveis do Homem-aranha (segurança econômica, veja bem).
Além desses casos em que o uso de pseudônimos é justificado, também escondem a verdadeira identidade prostitutas, travestis e profissionais do mercado pornográfico, pessoas que têm vegonha do que fazem. Quem se orgulha daquilo que diz ou faz não tem medo de ser reconhecido.

(Eu queria muito ter um pretexto para pôr esta imagem aqui. Não tenho, mas ela entra do mesmo jeito)
I see you, you see me
Era frio e era de tarde. Havia algum sol. Não era o cenário que ela queria, mas finalmente havia criado coragem “não é prerrogativa masculina, não é prerrogativa masculina”. Então lá estavam os dois sentados tomando um café e conversando “as pessoas não têm idéia do que eu vou fazer, de como isso muda tudo”. Eles conversavam uma conversa ótima, ela era simpática, sorria e ria das piadas dele “seja simpática, ria das piadas dele”. E ele era simpático de volta, ria das piadas dela também, e parecia estar se divertindo “ele não sabe o que eu vou fazer, ele não vai achar ruim, ele vai gostar, ele só estava esperando que eu tomasse a iniciativa”. Ela disse que o papo estava ótimo, mas que era preciso ir embora. Ele também precisava “não levante agora, não não não”. Ela agarra o casaco, o livro, a bolsa. Sorri para ele, ainda sentado “é agora, faça cara de séria, olhe no fundo dos olhos dele”. Ele oferece o rosto para um beijo, ela toma a boca. Sente a maciez da pele do rosto dele, a aspereza da barba despontando, a respiração, a língua, o calor, o sabor “menta”. Cinco segundos e meia eternidade.
Sem abrir os olhos, ela sai correndo desesperadamente.
Um clipe inspirado em um filme do Godard. Dedicado a mocinhas que beijam e saem correndo. I see you, you see me, do Magic Numbers (que vêm ao Brasil em julho – sim sim sim!).
Yeah yeah yeah
[uma versão ainda mais babona que esta aqui]
Seis e quinze da manhã no centro de São Paulo. O céu que as pombas cruzavam ainda estava escuro quando soaram os primeiros acordes de Helter Skelter. A canção abria a apresentação do grupo cover Beatles 4 Ever na terceira edição da Virada Cultural, dia 6 de maio. Embora o combinado fosse que a banda apresentaria o álbum Magical Mistery Tour, apenas as roupas dos músicos estavam de acordo. Mas tudo bem, isso não decepcionou o público, que pôde ouvir canções das diversas fases dos garotos de Liverpool. E, diga-se de passagem, pode ouvir muito bem – os caras do Beatles 4 Ever botam pra fudê.
Eles pensaram “o que podemos tocar para a galera cantar junto?”, e então usaram as respostas para compor o repertório. Assim que começaram Come Together o povo urrou, e daí eles tiveram a certeza de que iam pelo caminho certo. Muito certo. Em alguns momentos, tinha-se a impressão de que banda e público se lembravam de letras diferentes para a mesma melodia, o que era só um pouquinho broxante, mas o povo passava por cima disso e cantava qualquer coisa que os caras cantassem. Eles dominavam o público.
Marcus Rampazzo, fundador da banda e cover de um George Harrison melancólico pra cacete , impressionou durante While My Guitar Gently Weeps, fiel ao original como não conseguiria o próprio Eric Clapton – amigo fura-olhos do Georgie que gravou o solo de guitarra registrado no Álbum Branco. Impecável. Comovente.
Os músicos procuravam se revezar na primeira voz, respeitando a proporção original. Dessa forma, Ricardo Felício, o Ringo Starr, cantou apenas Yellow Submarine, enquanto Ricardo Júnior, ou Paul McCartney, dominou o microfone durante a maior parte do tempo. Talvez por ser o último componente a ingressar na banda, foi quem cometeu mais deslizes nas letras. Mas ele toca piano, o que é legal e compensa uma porção de falhas, inclusve algumas de caráter moral. Completam o quarteto Fábio Colombini, um John Lennon ultra-sorridente, e Edson Yoko, o tecladista de olhos puxados.
O momento mais intenso foi uma das poucas baladas da apresentação. Os primeiros acordes deram o tempo exato para o público reconhecer a melodia, encher o peito de ar e pedir, gritando em uníssono, na pausa da guitarra: Don’t Let me Down! A cada vez que o refrão se repetia, maior a força das vozes na platéia. Centenas de pessoas de pé, olhos fechados e ar de concentração, cada uma pensando naquela uma pessoa que por nada no mundo as poderia decepcionar.
Something, Revolution, Hey Jude, Magical Mistery Tour, Get Back, Long Tall Sally, Back in the USSR e, para encerrar com centenas de pares de mãos chacoalhando erguidas aos céus, Twist and Shout. Longos aplausos não foram suficientes para trazer a banda de volta ao palco. Nem roucos gritos.
Os mais desatentos talvez só então notassem que o céu estava claro – não viram que logo após a primeira música o dia havia decidido nascer para ver um show dos Beatles. No metrô de volta para casa, não era difícil reconhecer os beatlemaníacos saídos do show – além das camisetas da banda, um ar de alegria e satisfação estampava a cara de todos.
Foi a primeira vez que assisti o show de uma banda cover de Beatles. Foi lindo estar cercada por um mar de gente que também vive em um submarino amarelo. Cantei alegremente cada música, para azar dela que estava ao meu lado mas que, com o som bem alto, talvez nem tenha sofrido tanto assim.
Os caras são muito bons, o que não poupa um comentário de gente chata: faltou All you need is Love.

Jagged little pill
Há um ano atrás eu considerava as farmacêuticas o mal. The evil itself.
Há onze meses eu comecei a trabalhar com jornalismo corporativo. Nós trabalhamos com duas farmacêuticas. Uma delas é a fabricante do remédio contra a AIDS que teve a patente quebrada hoje de tarde.
Há um ano atrás, eu acharia isso realmente muito bom. O país vai gastar menos com os medicamentos, vai (eventualmente) poder fornecer tratamento para mais pessoas doentes e vai mandar os americanos *&$#%¨!#$#¨%&$#.
Mas, veja só, agora eu penso no lado das farmacêuticas. Desenvolver um medicamento é muito caro. Envolve anos e mais anos de pesquisas e testes com uma quantidade enorme de pessoas - testes que podem continuar mesmo quando o produto já está no mercado. Pesquisas são fundamentais para desenvolver novas drogas, mas custam caro. Sem dinheiro, sem pesquisa, sem remedinho. Além disso, a Merck tem a prática de reduzir os preços desse tipo de medicamento de acordo com a realidade econômica de cada país e o percentual da população infectada com o HIV. (Yung me manda lembrar que mesmo no preço mínimo eles têm uma margem de lucro – é, eles têm).
Se a Merck se dá mal, nós que trabalhamos com ela nos damos mal. O bem deles é o nosso bem, mas não necessariamente o bem do país. Do lado de quem nós ficamos?
Será que CT_osta tem a resposta para esse questionamento ético?